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quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

OZ - FIRE IN THE BRAIN





Por: Anderson Frota

Em algum momento, no começo dos anos noventa, a Finlândia, tal qual sua vizinha Suécia, ambas na região européia conhecida como Escandinávia, tiveram uma explosão de bandas que fez com que os radares do Heavy Metal mundial se voltassem para acompanhar o que estava acontecendo ali. A Suécia teve uma explosão maior, mas a Finlândia revelou nomes que hoje estão entre os mais lembrados do estilo, com uma forte base de fãs, tais quais AMORPHIS, CHILDREN OF BODOM, IMPALED NAZARENE, NIGHTWISH, SINERGY, SONATA ARTICA, STRATOVARIUS e TURISAS.


A mão empunhado a caveira que ornamenta a capa pertencia
a Quorthon (Bathory)

No entanto, lá no começo dos anos oitenta, na fase áurea do estilo, surgiu uma banda naquele país que, antes, só era lembrada em termos de música pesada por causa da existência do Rattus, grupo seminal do Hardcore. A tal banda, denominada OZ não extrapolou os limites do underground, mas fez um trabalho de qualidade, que é o foco aqui. "Fire in the Brain", lançado em 1983, é o seu segundo disco, e é considerado o clássico de sua discografia. 

A Primeira vez que eu tive contato com o grupo foi também nos anos 80, através de uma fitinha cassete gravada por um amigo, no formato de coletânea. Não me lembro de tudo que tinha na tal fita, mas sei que tinha MANOWAR, TROUBLE e MERCYFUL FATE, além do OZ. A música do OZ selecionada para a coletânea foi a faixa de abertura do disco "Fire in the Brain", Search Lights, impossível de ser esquecida por causa do grunhido que marca sua introdução. A faixa era excelente, mas demorou quase vinte anos para que eu pudesse conhecer o resto do disco e, devo dizer, a espera valeu, pois todas as composições do álbum são de muito bom gosto. Metal tradicional em grande forma, lembrando fortemente o que os holandeses do Picture também estavam fazendo.



Não consigo vislumbrar nenhuma outra comparação, mais precisa do que a com o Picture, para poder situar quem ainda não conhece esse disco. A faixa Fortune é bem sintomática em relação a essa semelhança, mas isso em momento algum quer dizer que o OZ imitava aquela banda. Tanto uma, quanto a outra, soam dessa forma porque ambas trabalhavam em cima do que existia de melhor em termos de Heavy Metal naquele tempo. Mais precisamente falando, a escola britânica, conhecida como New Wave of British Heavy Metal, que agregava peso sem extremismo com melodia sem afetação. 


Esse não é um daqueles discos que mudaram o curso das coisas, apontaram novos caminhos para o estilo ou qualquer outro tipo de quebra de padrões. É um disco honesto de etal. De bom Heavy Metal, do tipo que hoje em dia só se encontra em bandas revivalistas. Portanto, nunca deixe de explorar o passado, ao mesmo tempo em que percorre o presente, pois a fonte é infinita e tudo acaba por se mesclar. Se duvidar, ouça o disco e veja que músicas como Black Candle, Gambler ou Megalomaniac não envelhecem. Soam tão bem como devem ter soado trinta anos atrás, em um país que almejava ser visto no mapa mundi do Heavy Metal.


segunda-feira, 9 de março de 2015

TANKARD - 25 Anos de cerveja e Metal!


Por: Anderson Frota

Guitarra, guitarra, guitarra… Só se fala em guitarra e no seu impacto para o desenvolvimento do Rock. Tá certo que esse instrumento tocado por alguns egocêntricos tem o seu valor e importância indiscutíveis, mas – grande injustiça – pouco se lembra de outro elemento tão importante quanto – se não mais – para que o Rock chegasse aonde chegou: A cerveja!!!!! 

"Best Case Scenario: 25 Years in Beers" foi lançado em 2007
Quantas bandas não foram formadas sob as bençãos do divino líquido, quantos ensaios não foram regados por ela, quantos Riffs não foram criados sob sua influência? Quantos shows, festivais, reuniões de fãs não ocorreram com o seu consumo??? A cerveja é onipresente na cultura do Rock´n´Roll!!! Felizmente, uma banda, apenas uma banda, soube corrigir o rumo das coisas e colocar a cerveja em seu devido lugar, como o ponto central de inspiração para suas canções.


O TANKARD, das assim chamadas quatro grandes bandas do Thrash Metal alemão, foi a que menos cresceu, em termos de mercado, mas isso não diminuiu a sede que impulsiona sua existência . O KREATOR se leva a sério demais; o DESTRUCTION encarna todas as especificidades do estilo Thrash; o SODOM assumiu um postura motorheadiana com foco nos temas de guerra… o TANKARD, por outro lado, agregou o que podia do Punk e do Hardcore e trouxe isso para a mesa do bar, onde os amigos sentam e avacalham com os assuntos sérios, conversam besteira e dão risada. O que existe de melhor pra fazer na vida???

Foto Divulgação
Esse álbum é uma coletânea de regravações feito para comemorar os 25 anos da banda. São os maiores clássicos da primeira fase da carreira, refeitos pela atual formação, que mantem-se entrosada e inalterada pelos últimos 15 anos. Embora esse tipo de disco seja recebido com algumas ressalvas pela maioria, o presente trabalho pode ser apreciado sem objeções, pois o TANKARD não sofreu mudanças significativas na sua sonoridade ao longo do tempo, então não haverá descaracterização nas canções apresentadas. O diferencial, portanto, está na oportunidade de ouvir as músicas antigas com uma produção melhor. Só para constar, ressalto que o disco vem com um cd bônus com um tributo de várias bandas ao TANKARD, mas o meu foco aqui é a banda principal.

A banda em um momento de lazer (Foto Divulgação)
A ordem das faixas obedece o critério cronológico, então a primeira música só poderia ser Zombie Attack, que abriu o disco de estréia da banda, de mesmo nome, lançado em 1986. Preferências pessoais à parte, eu gosto mais dessa versão do que da original, por achar que ela tem mais ataque, principalmente no primeiro compasso do refrão. A partir dela, segue-se uma bem selecionada seleção de clássicos, percorrendo tudo que a banda fez em seus oito primeiros discos, de "Zombie Attack" até "The Tankard", acrescentando o EP "Alien" na conta. Estão presentes, portanto, músicas como "Don´t Panic", a Punk Rock "Space Beer", "666 Packs", "Beermuda", "(Empty) Tankard", o medley com "Alcohol", "Puke", "Mon Cheri" e "Wonderful Life", e, concluindo o álbum, uma das minhas preferidas: "Minds on the Moon".

O legal do TANKARD é que, apesar da fama mundial, a banda existe por puro amor à música, tal qual qualquer banda de algum amigo seu. Ninguém ali sobrevive da carreira musical, todos tem emprego fixo e o TANKARD funciona durante as folgas, como uma atividade prazerosa.

assim como a cerveja depois do expediente.


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

MOTORHEAD - Não durma até escutá-lo!

Por: Anderson Frota

No Sleep 'til Hammersmith...


Esse foi o primeiro disco do MOTORHEAD que eu ouvi. Tá certo que a banda tem uma infinidade de clássicos, mas não consigo imaginar melhor porta de entrada para sua discografia do que esse ao vivo. Tudo que você precisa saber sobre MOTORHEAD está aqui e, de certa forma, tudo o que você precisa saber sobre um show de Metal, principalmente para quem, naquela idade e naquela época, ainda não tinha vivenciado isso.


Clarke, Taylor, Killmister
A doutrinação já começava pela capa, exibindo uma foto da formação clássica em trio, envolta por centenas de luzes que, curiosamente, não iluminam os músicos, envoltos em penumbra, ameaçadores, flagrados em um momento em que você sente que algo muito intenso está acontecendo ali em cima do palco. Para alguém que nunca tinha assistido uma banda de Metal tocando ao vivo – e nem imaginava que algum dia iria assistir – aquela capa fazia viajar na intensidade de como seria esse tipo de evento. Discos ao vivo tinham esse poder, que hoje foi diluído, de lhe transportar para o centro daquele momento e de lhe fazer imaginar o que estaria ocorrendo ao longo da apresentação, quantas pessoas estariam assistindo, como seria a reação delas...

E para ingressar no local, junto com aquele público, bastava colocar a agulha no disco! Nesse momento eu tenho que inverter a ordem natural e começar pelo lado B, da forma que eu conheci o álbum. Há um breve e suave momento de silêncio e então: "tugudumtugudumtugudumtugudum"... a mais onomatopéica de todas as levadas de bateria passa por cima de você, abrindo caminho para uma linha cíclica de baixo, com o agudo no máximo, até a explosão do começo de "Overkill". Não importa que Lemmy fique repetindo que o MOTORHEAD toque Rock´n´Roll porque, sejamos sensatos, isso não é Rock´n´Roll nem aqui nem em lugar qualquer! Isso é Metal, extremamente intenso! Thrash ou pré-Thrash, tanto faz, mas é Metal! 

O Power Trio em ação (Foto divulgação)
Era o ano de 1981 e Lemmy já era o ícone que conhecemos - sem que a imprensa precisasse ficar repetindo isso o tempo todo – acompanhado por dois outros caras tão icônicos quanto: Fast Eddie Clarke e Philthy Animal Taylor, compondo o trio que mostrou, com mais propriedade, que não haviam limites para a extrapolação. A música pode ser mais alta, o ritmo pode ser mais rápido, a melodia pode ser mais agressiva.
Até hoje eu não absorvi plenamente o impacto dessa faixa. Eu sempre vou me impressionar a cada audição. Eu sempre vou querer que os seus falsos finais e recomeços se estendam por mais vezes do que as duas que ocorrem. Após o seu último acorde, um urro de Taylor é a deixa para "We Are The Roadie Crew", transição necessária para que cheguemos até "Capricorn", uma canção com um ritmo mais diferenciado dentro da discografia do MOTORHEAD, com um leve toque de psicodelia lisérgica, amplificada pelo eco colocado na voz de Lemmy. A partir daí, o andamento torna a acelerar, com "Bomber" e o encerramento com "Motorhead", música criada antes que o grupo nascesse, cuja primeira versão foi gravada pelo HAWKIND.

Foto por Bev Davis
Passando agora para o lado A, o baixo de Lemmy é a primeira coisa que se escuta, na introdução de "Ace of Spades", faixa-título do disco cuja divulgação gerou o presente show. Ela é imediatamente seguida por "Stay Clean", onde Lemmy novamente passa à frente, com um solo de baixo histórico, deixando, a partir de então, que o concerto flua intercalando entre faixas cadenciadas, como "Metropolis" e "Iron Horse", e faixas mais rápidas, como "The Hammer" e "No Class". 

Capa do clássico álbum lançado em 81
Ao final, não importando em que ordem você escutar, fica a satisfação da participação virtual em uma apresentação da banda. Experiência que só era obtida na época em que os discos ao vivo faziam alguma diferença, principalmente, de certa forma, para nós brasileiros que naquele tempo éramos um ponto distante das rotas das turnês. Hoje, podemos vivenciar os shows in loco, e os discos desse tipo acabaram perdendo uma parte de sua força, ou pelo fato de terem se tornado meras peças de souvenir, ou por serem tão manipulados em estúdio que desvirtuam seu propósito. De qualquer forma, "No Sleep ´Til Hammersmith" não se enquadra nessas categorias e permanece histórico e essencial. Um documento que registra o poder e os efeitos da submissão a uma força da natureza chamada MOTORHEAD.



domingo, 8 de fevereiro de 2015

SUICIDAL TENDENCIES – Luzes...Câmera...CROSSOVER!


Por: Anderson Frota


O edifício na capa do álbum é o Teatro Vista 
localizado ao leste de Hollywood, Califórnia.
Uma lenda! Sem exageros ou metáforas, mas é assim que eu percebo o SUICIDAL TENDENCIES. Uma banda muito conhecida e pouco escutada, pelo menos entre meus amigos mais próximos. 

É uma pena, porque trata-se de um grupo fantástico, com uma sonoridade única e que lançou, no mínimo, três clássicos indispensáveis: "Join the Army", "Still Cyco After All These Years", que é a regravação do também clássico primeiro disco, e este "Lights...Camera...Revolution", cujo registro correspondeu ao período de maior popularidade experimentada em sua trajetória. Merecidamente, aliás, pois esse é, de fato, um disco sensacional. Pesado, rápido, agressivo e, diga-se, extremamente divertido. Ficando bem claro que, divertido, aqui, está longe ser sinônimo de engraçadinho. O talento de Mike Muir, como compositor e letrista, não deixa que as músicas resvalem para essa seara, apesar de que esse mesmo talento seja o responsável pela constante autoreferência nas letras, com a palavra "Suicidal" e suas derivações sendo constantemente mencionada, durante as canções, ao longo de toda a discografia da banda.

Foto promocional para o single "You Can´t Bring Me Down"

Mike, o líder da gangue, teve consigo, nesse trabalho, a formação mais entrosada de que já dispôs, com o baterista RJ Herrera, a guitarra solo de Rocky George, as bases Thrash de Mike Clarck, e o baixo "grooveado" de Robert Trujillo, estando, este ultimo, no momento de sua carreira em que pôde melhor explorar sua personalidade como músico. 

Falando de Trujillo, em separado, não dá pra deixar de registrar que é um dos melhores baixistas em atividade atualmente, mas, no METALLICA, ele não tem espaço para executar as levadas "funkeadas", carregadas de "groove", que ele fazia em seus tempos de "Suicidal", onde ele tinha mais liberdade e influência nas composições. Ali, quando esse tipo de linha de baixo surgia, ela conseguia funcionar a favor da música, já que a formação da banda, formada por negros e latinos, agregava suas diversas raízes musicais – sem soar forçado – dentro do Hardcore/Thrash praticado. Mais tarde, essas misturam viriam a desencadear na criação do INFECTIOUS GROOVES, que posteriormente viria a refundir-se com a banda original, culminando no "Suicidal" atual.




Mas, voltando ao presente disco, ele já abre com um clássico instantâneo: "You Can´t Bring Me Down" uma faixa fulminante, com um refrão perfeito e que, em sua parte intermediária, ainda permite que Mike faça o que mais gosta na vida: discursar! "You Can´t..." permanece até hoje como a música de abertura dos shows e é uma das melhores da banda desde sempre. Só não ganha o título de melhor faixa do disco porque fica emparelhada com "Alone", outra música excelente e que é um perfeito exemplo de Thrash “cantável”. Algo que o "Suicidal", da mesma forma que o ANTHRAX, consegue fazer como poucos dentro desse cenário.






Essas duas são seguidas de perto por "Lost Again", "Lovely" e "Send Me Your Money", compondo o suprasumo do trabalho, cujo restante, representado por faixas como "Get Whacked", "Give It Revolution" e "Go´n Breakdown", fazem, desse, um álbum fundamental, de uma banda que não só esteve na origem do Crossover como conduziu-o para outros níveis, experimentando com sonoridades diversas, afastando-se dos nichos musicais que, inevitavelmente os manteriam apenas como uma boa promessa. Hoje, eles podem ser encarados como uma formação composta por Mike Muir e seus músicos contratados, mas, na época de "Lights...Camera...Revolution", eles eram realmente uma banda. Aliás, perdão, eles eram uma lenda.



quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

POSSESSED - O Retorno do Exorcista

Por: Anderson Frota


De forma alguma eu começaria esse texto falando sobre quem, de fato, criou o Death Metal. Isso é uma discussão parcialmente inócua e sem um resultado preciso a ser alcançado, pois estilo algum pode se originar de uma fonte individual. Qualquer estilo, qualquer tendência musical, é consequência de colaborações coletivas, geograficamente espalhadas, e de natural evolução cronológica da música.


Dito isso, posso agora afirmar que independente da origem, a certeza que eu tenho é de que este disco definiu para mim o que seria Death Metal e tudo que eu ouvi do estilo desde então, passou pelo crivo do que aprendi com "Seven Churches". Em suma, eu uso uma espécie de “padrão POSSESSED” para avaliar o que é e o que não é Death Metal para mim.

A capacidade para fazer Death Metal exige do compositor o dom de transmitir determinadas sensações com sua música. Tem que ter peso? Confere; tem que ter rapidez? Não necessariamente. Mas é fundamental que haja a sensação de malignitude. De medo e de asco. A música tem que ser, literalmente, tenebrosa. Quando "Seven Churches" chegou até nós, dava para perceber ali os espectros do VENOM e do SLAYER, mas havia a inserção de diferenciais, nos timbres, nas batidas, na voz. Em "The Exorcist", primeira música, após a mais do que óbvia introdução retirada da composição de Mike Oldfield, que serviu de trilha sonora para o filme de mesmo nome, a melodia de guitarra, que pontua o intervalo entre as estrofes, aumenta a tensão da música, passando a sensação de embate que a letra da mesma sugere.


Quando se fala em POSSESSED, o primeiro nome que vem à lembrança é o de

Jeff Becerra, por ser o frontman, o letrista e por suas tragédias pessoais, além do fato de não ter se rendido aos traumas causados por estas e estar capitaneando a banda atualmente. Em seguida, vem Larry LaLonde, que chama atenção pela reviravolta sem precedentes que deu em sua carreira, saindo do POSSESSED para o PRIMUS. O nome de Mike Torrao nem sempre é devidamente mencionado, mas é necessário, por justiça, trazer à tona a sua contribuição, afinal ele não é apenas o fundador da banda, mas, principalmente, o compositor de todas as músicas. Torrao assina sozinho o álbum inteiro, excetuando apenas a faixa-título feita em parceria com LaLonde. Por essa razão, o sujeito merece ser um verbete de destaque na história da criação do gênero, afinal saíram de sua mente faixas clássicas como "Pentagram" e principalmente, a música que definiu tudo: "Death Metal". 


Não apenas pela associação que seu nome gera, mas essa composição é para mim o mesmo que "Black Metal" é para o VENOM e para o estilo de mesmo nome. Um grito seco, proferido sobre uma base extrema que, por ser a ultima faixa do disco, resume tudo que lhe antecede. Resume a velocidade de "Burning in Hell", resume a guitarra e o baixo dobrados no final de "Fallen Angel", resume a capa minimalista, resume, por fim, o pioneirismo de uma banda que agregou suas influências, colocou a sua marca, e passou a ser influente, pois foi um dos baluartes do estilo que, até hoje, apesar de suas infinitas variáveis – Brutal Death Metal, Deathcore, etc... – ainda é a fronteira não ultrapassada da música pesada. É o metal da morte, afinal, e, depois dessa, não há mais alternativas.


domingo, 18 de janeiro de 2015

Kreator - Dor sem Fim!!!


Por Anderson Frota

Não é de se admirar que o Thrash Metal se tornou a potência de estilo que é. Todas, praticamente todas as grandes bandas dessa linha estrearam com discos no mínimo explosivos: "Kill´em´All", "Fistful of Metal", "Show no Mercy", "Power from Hell", "Fear of Tomorrow", "Killing is my Business", "Sentence of Death"... Uma sequência de lançamentos violentos na qual inclui-se com louvor (ou seria melhor dizer com maldição) esse "Endless Pain". Cada um dos artistas responsáveis por essas obras iria evoluir no futuro, fazendo experimentações ou acrescentando mais técnica ao seu trabalho, mas a crueza de seus debutes marcaria para sempre a expectativa que cada novo álbum geraria no futuro.

Foto Divulgação

Graças ao recrudescimento que o fator agressividade obteve no Heavy Metal ao longo dos anos, os discos mais brutais, mais diretos, da primeira fase do Thrash, sofreram menos o impacto do tempo, permanecendo atuais até os presentes dias. É o caso de "Endless Pain". Alguns discos de Metal extremo daquela época poderiam, atualmente, quase serem considerados como Metal tradicional, mas a estréia do KREATOR ainda é brutal. E o impacto já é evidente nos primeiros segundos, na faixa título, que inicia tão rápida que praticamente explode na sua cara. Os riffs das duas músicas seguintes, "Total Death" e "Storm of the Beast", soam hoje, para mim, como algo semelhante ao estilo de Mike, do DESTRUCTION. Nada demais, afinal as duas bandas são contemporâneas e do mesmo país, além de seus integrantes terem tido as mesmas influências, então quaisquer afinidades são creditadas à cena em que surgiram. 



Ventor, Rob, Mille

As diferenças evidentes entre cada um iriam se reforçar com o passar dos anos, mas, em músicas como "Tormentor" (Nome que a banda adotava antes de virar Kreator) e "Flag of Hate", elas saltam aos olhos, pois essas são as que provavelmente melhor refletem a personalidade que o KREATOR desenvolveu e talvez por isso mesmo são as que permanecem no repertório dos shows. Merecidamente, aliás, pois posso afirmar por experiência própria que não importa o quão cansado você esteja, nem quanto álcool tenha consumido, essas duas músicas, geralmente executadas juntas no final do bis, são capazes de lhe arrancar qualquer resquício de energia para agredir as vertebras do pescoço. 

Rob, Mille e Ventor (ainda como Tormentor)
O outro grande diferencial dessa fase da banda, e que poderia ser mantido até os dias atuais com doses homeopáticas, era a divisão dos vocais entre as músicas. Mille canta cinco das dez músicas e Ventor as outras cinco. No disco seguinte essa proporção já seria reduzida e, no terceiro álbum, completamente deixada de lado. É uma pena, porque eu gostava bastante das performances de Ventor, que tinha uma vocalização mais brutal, um pré-gutural, digamos, ao contrário de Mille, que cantava suas faixas com um timbre mais rasgado, quase viperino. Ao longo do tempo, Mille dominou completamente os vocais e modificou sua forma de cantar, estabelecendo o padrão definitivo para o estilo Kreator de fazer Metal, mas se Ventor continuasse se aventurando em uma faixa aqui e outra acolá, seria um bônus deveras interessante para o perfil do grupo.
Entre as músicas ainda não citadas, vale destacar a faixa "Cry War", também comandada por Ventor. As demais, como "Bone Breaker", "Son of Evil" e as restantes mantém o padrão de agressividade e soco na cara que permeia todo o disco. 

Nada mal para uma banda que acreditava que esse seria o único disco que conseguiriam gravar e, hoje, está merecidamente entre as mais importantes e influentes que já existiram, sendo headliners de festivais e ocupando, merecidamente, a posição de destaque que tem no Thrash Metal, na Alemanha e no mundo.


domingo, 4 de janeiro de 2015

Pink Floyd - O muro inquebrável!


Por: Anderson Frota

Lá nos primórdios de minha paixão por música – e dá pra tranquilamente substituir a palavra “música” por ”Heavy Metal”, pois era tudo que eu ouvia e foi quando a música passou a ser realmente algo importante para mim – um grupo de amigos inventou de passar um carnaval acampado na praia. Facilitou muuuuito a vida da gente o fato de, na tal praia, ter uma barraca - ou boteco, sei lá - de frente para o mar, onde dava pra tomar café da manhã. De uma forma meio precária, mas dava. Eu não me lembro se era alguém do grupo que levava as fitas pra tocar no som da barraca ou se elas eram do proprietário da mesma, mas sei bem que rolava constantemente Led Zeppelin e Pink Floyd. Do Zeppelin, não consigo me recordar qual era o disco, mas do Floyd eu nunca vou esquecer: era o The Wall.



Filme dirigido por Alan Parker


Ilustração feita por Gerald Scarfe em 79
Como foi dito, eu nunca tinha ouvido Pink Floyd antes. Eu só escutava Heavy Metal. Beatles, Stones e quetais só vieram a me despertar interesse bem depois que eu já estava íntimo de Slayer, Venom e Metallica. Sim, é claro que eu já conhecia a música Another Brick in the Wall, mas é porque ela sempre tocava no rádio. Daí, o fato do Floyd ter chamado mais a minha atenção do que o Led Zepellin, naquele momento. A linguagem musical era mais estranha para mim, requeria um pouco mais de atenção para ser absorvida por meus ouvidos doutrinados por outro tipo de batida. Era uma música hipnótica e diversas coisas aconteciam ao seu redor. Explosões, helicópteros, gente conversando, telefones, gritos, tudo emoldurando as músicas, ampliando a sensação onírica que a obra do Pink Floyd transmite. Roger Waters não é nenhum virtuoso do baixo, mas é um compositor extraordinário. Sua posição na banda tem paralelo com o status de Pete Townshend no Who: não é o músico mais habilidoso do quarteto, mas é o motor criativo. No Floyd, as ideias de Waters eram ampliadas pelas performances de Nick Mason e – em maior grau – David Gilmour e Richard Wright. Esses dois últimos conseguiam elevar a fusão de beleza e escuridão que caracteriza a música da banda. 

Comfortably Numb, uma das melhores faixas do disco e de toda a carreira do Pink Floyd traz, em seu título, a melhor definição para as impressões transmitidas pela audição de seus discos. Não é por acaso que um dos solos mais conhecidos de David Gilmour está justamente nela.

E Comfortably é apenas a cereja do bolo. A coleção de canções de The Wall deixa transparecer os motivos pelos quais esse disco, juntamente com The Dark Side of the Moon, consegue se sustentar em uma apresentação apenas com suas faixas. Não dá pra se satisfazer menos com uma sequência com pérolas como In the Flesh, Mother, Hey You, Run Like Hell, Young Lust, Nobody Home e a já mencionada Another Brick in the Wall, cujas levadas de guitarra e baixo tem uma inusitada proximidade com a black music.

Rick Wright, Roger Waters, David Gilmour e Nick Mason
A palavra viagem, tão banalmente utilizada quando se fala de rock progressivo, teve uma definição mais exata para mim a partir daquele momento. Foi-me aberto o interesse por um novo campo musical, um novo universo para ser explorado, com inúmeras bandas para conhecer, das quais eu apenas ouvia falar, tais qual Jethro Tull, Yes, Marillion, etc. Alguns dias depois de ter retornado do carnaval, eu me dirigia para as lojas de discos do centro da cidade, procurando novas coisas do Pink Floyd. Tinha um disco com uma capa bem interessante, com um porco voando, mas isso já é outra história...


sábado, 20 de dezembro de 2014

Accept - Blood of the Nations, o álbum que reacendeu a chama!



Por: Anderson Frota

Essa foi, provavelmente, a mais bem sucedida troca de vocalista da história do Heavy Metal! Iron Maiden, AC/DC e Black Sabbath conseguiram fazer bem essa transição mas, em todos os casos, houve alguma alteração, mesmo que discreta, no som da banda. O Accept, porém, continuou 100% Accept. E, mérito maior, Mark Tornillo não é um clone ou imitador de Udo Dirkschneider. O sujeito tem seu próprio timbre que - e assim teria que ser - é o adequado para as músicas do Accept. A banda sabiamente evitou os equívocos de, ou inserir alguém radicalmente idêntico, o que geraria estagnação e comparações infinitas, ou apostar em alguém com características de voz por demais diferente, o que desfiguraria a personalidade do conjunto. Acertaram no ponto!



Mudanças de vocalista são geralmente as mais traumáticas e eu mesmo sou daqueles relutantes em aceitá-las pois, na maioria dos casos, é a voz que traz a identidade da banda e faz com que eu tenha ou não interesse pela mesma. O êxito dessa nova encarnação do Accept foi facilitado pelo fato deles terem surgido com um disco absolutamente matador. Uma coleção fantástica de novos clássicos. Um álbum que, de certa forma, comprova que bandas não tem necessariamente prazo de validade. O que existe de fato é a inspiração ou a falta dela.



Quem esperava que o Accept, a essa altura do campeonato, depois de tantas conturbações, conceberia um de seus melhores trabalhos, ficando em pé de igualdade com os clássicos lançados na década de 80? Blood of the Nations é o tipo de disco que, sendo tocado na íntegra, garante a qualidade do show e a satisfação do público! Eu queria poder listar algumas músicas, apontando-as como os destaques, mas quais??? A nova configuração de compositores do grupo jogou uma cartada definitiva em sua reentrada no cenário. Tudo está lá, todos os detalhes que nos fazem amar o Accept estão no disco,inclusive os onipresentes coros, executados daquela maneira que apenas eles conseguem fazer. No Shelter, Pandemic e Teutonic Terror são as faixas que ainda continuam no setlist, nos palcos ao redor do mundo, e merecem permanecer lá. Se não houvesse tanta música boa pra escolher, talvez pudessem também manter a balada Kill The Pain, onde Wolf Hoffman soa um pouco como Uli Jon Roth fazia em sua época de Scorpions.




Sobre Wolf, aliás, não há muito que eu possa falar. Ficar melhor à medida que envelhece não é um chavão, é um privilégio, é um reflexo de como o músico enxerga o que fez em sua carreira e o que ainda pode fazer. Peter Baltes, por outro lado, é um caso à parte. Ele não é o tipo de músico chegado a pirotecnias, mas quanto talento tem em suas linhas! Um baixista muito acima da média! Na única oportunidade em que tive de assistir o Accept ao vivo, a banda veio desfalcada do guitarrista Herman Frank, por motivos de saúde. A música do Accept é feita para duas guitarras e funciona melhor assim, mas – desculpe por isso, Herman – a ausência da guitarra base, naquele show, não foi sentida. E o mérito absoluto é de Peter, que segurou o ritmo com uma tranquilidade absurda. Uma simpatia, uma postura de palco tão segura que contrasta com as trovoadas emitidas pelo seu contrabaixo. 


Lá no passado, quando Udo retornou para a banda em 1992, lançaram um ótimo disco, Objection Overruled, que deu início a uma sequência de três álbuns com as capas em cores predominantemente pretas. A empolgação inicial, porém, foi decaindo até o lançamento

do meio apático Predator, que marcou a segunda saída de Udo. Em sua nova e atual fase, já saíram também três discos, agora com as capas evidenciando os tons vermelhos, e a qualidade permanece constante. O vermelho das capas deve fazer referência à nossa conhecida expressão “sangue nos olhos”, pois é isso que a banda vem demonstrando. A formação atual não vai sobrepujar a importância histórica da formação clássica, obviamente, mas os músicos parecem estar se divertindo, e os fãs estão sendo beneficiados pelo atual momento, com uma de suas bandas preferidas não apenas viva, mas relevante! Que continue assim!

Formação:
Mark Tornillo - voz
Wolf Hoffmann - guitarra
Herman Frank - guitarra
Peter Baltes - baixo
Stefan Schwarzmann - bateria

Abaixo temos os dois clipes produzidos para o álbum:





Accept - Blood Of The Nations
(2010 - Nuclear Blast Records / Laser Company Records - nacional)


domingo, 23 de novembro de 2014

Judas Priest - Vingança para sempre!


Por Anderson Frota

Já rascunhei diversas vezes sobre várias bandas pelas quais tenho admiração. Semprei tenter expor um pouco do que cada uma me transmite com sua música, mas, poucas vezes, me sentiria tão passional quanto agora. Todo o heavy metal deve ao Judas Priest. Todo. Provavelmente o estilo ainda existiria sem eles, mas seria bem diverso do que conhecemos hoje. Algo amálgamado entre o Black Sabbath e o Motorhead, talvez, mas o visual, a postura, a musicalidade, não poderiam ser as mesmas. Iron Maiden, Slayer, Trouble, Ratt, Pantera, Symphony X e tantas outras, tão diferentes entre si, foram, de uma forma ou de outra, influenciadas pelo quinteto de Birmingham.

Da mesma forma, eu também tenho dívidas com eles. Quão grande não foi o impacto que o grupo teve no meu modo de vida: Os amigos que tenho, os livros que leio, as roupas que visto, a minha rotina do dia-a-dia, tudo seria completamente diferente se o Judas Priest nunca tivesse existido ou se eu nunca tivesse tido acesso à sua música. Não foi algo absorvido aos poucos ou que eu tenha aprendido a gostar com a passagem do tempo. Não. Foi instantâneo foi imediato, foi paixão ao primeiro acorde. É claro que todos os discos que escutei quando estava descobrindo o estilo me marcaram, mas o Judas selou definitivamente a coisa toda, tal qual um contrato vitalício. A partir de agora, não há mais como voltar!

Em Screaming for Vengeance, seu oitavo disco de carreira, tudo exala metal antes mesmo do álbum ser posto para rodar. O logo cheio de pontas, o título ameaçador e a capa com a águia estilizada mergulhando para o ataque. Logo ao começo do clássico-mor The Hellion/Electric Eye, um novo capitulo da história do estilo começa a se desenrolar e, é preciso dizer: ninguém, absolutamente ninguém nesse mundo poderia entoar o verso “Eu sou feito de metal” sem soar ridículo! Cantada por Rob Halford, porém, a frase torna-se épica e imponente! Nos seus segundos finais, enquanto o fôlego e os acordes vão se esvanecendo, Dave Holland dá início a Riding on the Wind, tão rápida quanto eram os padrões de velocidade da época. Halford rasga a garganta como somente ele era capaz de fazer e as guitarras soltam uivos no solo. Depois de uma sequência tão intensa, Bloodstone ainda mantém o peso em evidência com um refrão de força coletiva e a evidência do quão variado o disco é.


Esse álbum foi um grande e merecido sucesso, inclusive nos Estados Unidos, território que várias bandas queriam conquistar e, provavelmente, para impulsionar essa meta é que Take These Chains, que é um cover, e Fever soam mais americanizadas, mas sem que isso signifique perda de qualidade. Quando entra a faixa título, o Heavy Metal frenético volta a soar e a mais emblemática dupla de guitarristas da história do metal se destaca, fazendo, no solo, aquilo que os Helloween's e Gamma Ray's transformariam em estilo.
Tem quem ache You´ve Gota Another Thing Coming uma música maçante, mas eu a considero genial. Um clássico que insiro tranquilamente entre minhas cinco canções favoritas da banda. A música tem um refrão sensacional e, arrisco dizer, reflete muito do que o Accept viria ainda a fazer ao longo de sua carreira. Além do mais, o seu andamento irresistível é cortesia do baixo seguro de Ian Hill. Para quem não sabe, foi Ian quem formou o Judas junto com KK Downing e se, por um lado ele prefere se manter discretamente na parte posterior do palco, por outro a cabeça do sujeito não para de balançar, a não ser nos momentos em que ele empunha e joga o baixo como se fosse uma alavanca.


No final, a última faixa fecha o álbum de forma absolutamente clássica. Devil´s Child é o Judas Priest dos anos setenta com a produção dos oitenta. É uma música que não soaria deslocada caso estivesse em um disco como Stained Class, por exemplo. Por mais variadas que tenham sido as fases pelas quais a banda passou, a assinatura que permeia todas as suas composições é sempre a mesma. Com uma ou outra diferença de produção, qualquer música, de qualquer disco, não se distancia da obra, vista de modo geral. Isso é personalidade, isso é talento, isso é o que me faz ser fã e ter, na expectativa de cada novo trabalho, a ansiedade mesclada com a memória afetiva da primeira vez que eu ouvi falar que existia uma banda chamada Judas Priest. Ouvir essas músicas, esse padrão de composição, é ter contato com algo que está sintonizado com minhas sinapses e, a cada nova audição, me faz relembrar de quem eu sou e sempre agradecer por isso.




quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Slayer - Reign in Blood


Por: Anderson Frota


Até 1986, o metal vinha numa escalada de brutalidade, com cada lançamento sendo mais extremo do que o outro. Depois de 1986, evidentemente, essa escalada não parou, mas passou um período de stand-by, de estarrecimento do tipo “o-que-fazer-agora?”.

A causa foi o disco Reign in Blood. O Slayer já era cultuado pelo que tinha feito até então, mas Reign in Blood revirou as regras do jogo e, quando me refiro ao estarrecimento provocado, não falo só de outras bandas, mas também do público. Demorou um tempo para que aquela nova proposta do grupo fosse devidamente absorvida. Enquanto bandas como Megadeth e Metallica estavam evoluindo no caminho de se tornarem mais técnicas, o Slayer evoluiu para a bestialidade.

 Rob Halford disse que escutar o Slayer é como ouvir música em chamas. É uma definição perfeita, porém incompleta. A música do Slayer tem efeito multisinestésico. Escutar Angel of Death, precipuamente o ataque do refrão, transmite sensações não só de combustão, mas também de tremores sísmicos e impactos físicos.
Reign in Blood demonstrou que concessões não são o caminho para o sucesso. O Slayer se tornava mais popular a cada vez que extremava seu som. E para agregar peso a banda não precisava recorrer a recursos como afinações mais baixas, por exemplo. Bastava a velocidade absurda, com letras que apenas Tom Araya poderia cuspir de forma tão ríspida, marjeadas pelos solos peculiares de Hanneman/King - a versão infernal de Downing/Tipton - e as batidas do melhor baterista revelado pelo thrash, Dave Lombardo.
A introdução de Angel of Death, com as palhetadas preparando o terreno para a entrada do grito de Tom Araya simultâneo com o ataque da bateria é um daqueles momentos que desafiam a contenção. Por mais que se aumente o volume do som, ao escutar essa música, o máximo nunca é suficiente.
Outra constatação desse álbum é a de que criatividade não significa encher o disco com looongos minutos de música. Isso é uma idéia equivocada que veio com a popularização do cd. Quando os discos poderiam ter no máximo uns 40 minutos de duração, você tinha mais ânimo para ouvi-los repetidas vezes. No momento que os cd´s passaram a oferecer a disponibilidade para setenta e tantos minutos de capacidade, não faltou artista que, sob a falsa premissa de oferecer mais em troca do dinheiro dos fãs, entupiram seus trabalhos com qualquer resto de inspiração que tivessem. Discos que, se mais enxutos, poderiam ter se tornado novos clássicos, entraram para a história como aborrecimentos paquidérmicos. Reign in Blood nasceu com menos de trinta minutos e cada segundo é literalmente matador. Sem qualquer exagero, a música contida aqui não agride apenas pelo peso, velocidade, ou pelo vocal gritado, mas também pela aura maligna. A maioria das bandas thrash, tão agressivas quanto, transparecem apenas violência em suas músicas, mas o Slayer vai além e exala tanto a violência quanto a obscuridade. Sem deixar de mencionar músicas que se eternizaram nas apresentações, tal qual Angel of Death e Raining Blood, e de outras essenciais como Altar of Sacrifice, eu tenho que destacar duas faixas pouco lembradas, que juntas somam apenas 4 minutos e meio, com andamentos e métricas bem distintos dentro da discografia da banda: Reborn e Epidemic.

Cada um dos três primeiros discos do Slayer é bem diferente do outro, mas cada um preserva o caráter da banda e, inevitavelmente, estabeleceu novos direcionamentos para o metal como um todo. Reign in Blood foi o seu ápice e, depois disso, não havia mais para onde ir. South of Heaven e Seasons in the Abyss são excelentes, mas não inovaram. Trouxeram novos clássicos, mas navegaram dentro da musicalidade criada até então e, por conta do resultado de Reign in Blood, todo novo trabalho passou a tê-lo como parâmetro. Se por um lado isso deve incomodar os artistas, por outro é um privilégio. É melhor ter um grande trunfo na discografia do que ter uma produção marcada apenas pela medianidade. E ser mediano, definitivamente, não é para aqueles quem reinam no sangue

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

IRON MAIDEN - THE NUMBER OF THE BEAST


Por: Anderson Frota


Eu sempre apreciei o terror. Seja em livros, filmes ou mesmo quadrinhos (revista Cripta), o tema me fascina e me levou a consumir diversas obras sobre o assunto. Mas uma vez, uma úncia vez, eu tive que abortar a leitura de um livro por incômodo. Em 1986, quando eu trabalhava no interior do estado, estava sozinho no quarto da pousada lendo o livro A Profecia. Era noite e a combinação do trecho em que estava com o isolamento e a variedade de estalos e barulhos que as pessoas costumam ouvir nesses momentos fez com que eu marcasse a página e deixasse para retormar o texto em momento mais oportuno. Já li O Exorcista, Amitville, além de toda a obra de Stephen King, Lovecraft e Edgar Allan Poe, mas A Profecia realmente me assustou.
Evidente que o que me fez adquirir o livro não foi o filme feito para o cinema, bem ruinzinho por sinal, e sim o disco cuja canção-título foi nele inspirada. E, em 1982, o Iron Maiden era tão irrefreável quanto o próprio Damien. Tal qual o advento de um ser enviado do inferno para a destruição do mundo, o Iron Maiden ressurgia para guiar o heavy metal para um novo patamar. Em sua nova fase, com Adrian Smith definitivamente consolidado ao grupo, Bruce Dickinson foi incorporado para ser a nova cara da banda, mais determinada e mais profissional. 
Na minha opinião, The Number of the Beast peca, em parte, apenas pela ordem das músicas. Invaders é uma excelente canção, mas nem de longe é a mais forte do disco. No entanto, por ser a mais assemelhada ao material dos dois primeiros álbuns, creio que ela funcione como elemento de transição entre o antigo material e o novo. A partir de Children of the Damned temos, finalmente, contato com tudo que o Iron Maiden é, a partir de agora, e que será no futuro. Existem várias bandas que fazem músicas longas, mas que não mantém uma linha. As músicas, em sua parte final, parecem ser outra completamente diferente daquela do início. O Maiden, ao contrário, tem habilidade para criar composições longas que mantém sua coerência e, conforme se desenvolvem, vão ficando cada vez melhor. Children of the Damned é assim: a sua parte final é diferente de seu começo, mas é a mesma música, com mais pegada, com começo, meio e, ao final, um clímax, tal qual o desenrolar de um filme.


Em The Prisoner o destaque, para mim, é Clive Burr. Apesar de todo o trabalho do restante da banda, é sempre a bateria que eu percebo em primeiro plano nessa música, especialmente a marcação executada durante o solo de guitarra. 22 Acacia Avenue é do mesmo naipe de Children of the Damned. Música com uma progressão lógica de melodia. É uma pena que essas duas maravilhas não façam parte do vídeo Life After Death (para quem não sabe, as cinco últimas músicas são de um show diferente do que gerou a gravação principal do álbum).

O que seria o antigo lado B inicia com o épico, a faixa-título, de começo climático como exige o seu tema. A canção foi tão marcante para a banda que a utilização da palavra ‘beast’ como autoreferência seria uma regra a partir de então. O Iron Maiden nunca se autodenominou como ‘killers’, por exemplo, mas já lançaram um disco ao vivo, uma compilação e uma coletânea de vídeos em que se apresentam como ‘the beast’. De fato, não só mais impactante como mais de acordo com a dimensão que o grupo tomou.
Run to the Hills leva o conceito de ritmo cavalgado alguns degraus acima. Nem poderia ser diferente, de acordo com a letra que, aliás, demonstra a ampla variedade de temas abordados pelo Iron Maiden em suas músicas. Gangland é a única faixa do disco que não tem a mão de Steve Harris na composição e, salvo engano, é a única da banda que Clive Burr assina. É uma faixa bem rápida e direta, quase sem variação de andamento, com o pé fixo no acelerador. O ápice do disco vem na sequência, não porque seja a última música, mas porque é a melhor. O mais perfeito retrato dos pensamentos de um condenado à morte aguardando a execução. Paul DiAnno teve o seu momento eterno com Phantom of the Opera e Hallowed be thy Name tem o mesmo nível de perfeição, quase como se Steve Harris quisesse que a estréia de Bruce fosse marcada por uma música tão grandiosa quanto Pahntom foi para Paul.

Sem desconsiderar Judas Priest, UFO, e as outras bandas que os inspiraram, bem como todas aquelas que participaram da NWOBHM, o Iron Maiden estava em uma posição única, sem paralelos entre as demais bandas de metal. Se a linha evolutiva do gênero teve o seu primeiro salto entre o Black Sabbath e o Judas Priest, o Maiden era indubitavelmente o marco seguinte na escala. Talvez seja por isso que a tal besta do apocalipse até hoje não saltou das páginas da ficção para a realidade. Nem ela poderia superar o Iron Maiden!



domingo, 19 de outubro de 2014

METALLICA - RIDE THE LIGHTNING


Por: Anderson Frota

Ninguém espera, com muito afinco, os discos novos de bandas já veteranas e consagradas. Existe expectativa, é claro, mas ela é diluída pela disponibilidade de uma discografia carregada de clássicos e que, na maioria dos casos, contém os anos mais profícuos dos artistas.

Quando se trata de grupos iniciantes é um pouco diferente. Bandas que lançam grandes álbuns em suas estréias deixam os fãs com mais água na boca, querendo ter logo acesso a mais material, mais novidades deles. Evidente que pra gerar esse tipo de ansiedade, o artista em questão tem que surgir com uma assinatura própria, algo que o distingua de alguma maneira da avalanche de outros novos grupos que aparecem todos os dias. Não há dúvida de que Kill´em´All foi um desses casos. Um lançamento bombástico que demandou uma espera por mais e mais e mais daquele grupo chamado Metallica e, exatamente um ano e dois dias depois, a sequência chegou para satisfazer a espera. Ride the Lightning, um disco que ignorou a tal da síndrome do segundo álbum e melhorou e ampliou tudo o que foi anunciadio na estréia. Prescindir da contribuição de um compositor como Dave Mustaine não seria fácil, mas a banda superou com tranquilidade essa ausência, embora o guitarrista ainda tenha sido creditado como co-autor em duas músicas. Ride é um passo além do que foi apresentado no seu antecessor. É mais variado, mais trabalhado. Não é um disco em que tudo se destaca, mas os seus momentos aquém da qualidade do restante são tão poucos que são desconsiderados perante o resultado geral. Tudo é tão grandioso que o logo da banda, em formato de bloco, parece ter sido desenvolvido para sinalizar o estágio musical em que eles estavam. O começo melódico de Fight Fire with Fire logo desaparece sob o riff da guitarra de James Hetfield. Thrash metal absoluto, sem um minuto para respirar. A letra falando de hecatombe nuclear, junto com outras que falam de cadeiras elétricas, pragas egípcias e quetais apresentam-se bem distantes das temáticas atuais, onde Hetfield resolveu fazer do ato de compor uma terapia pros seus traumas pessoais. O que eu poderia falar sobre Creeping Death, Fade to Black, For Whom the Bell Tolls, Ride the Lightning e The Call of Ktulu – provavelmente a melhor música já feita em homenagem a H.P. Lovecraft - que alguém ainda não saiba? Como estabelecer um parâmetro entre todas as faixas mencionadas até aqui, quando todas estão entre o que de melhor já foi feito em termos de heavy metal? Trapped Under Ice responde, junto com Fight Fire with Fire, pelo lado mais thrash do álbum, mas talvez por ter sido relegada pela banda através dos anos, não é tão referenciada quanto deveria. E quanto a Escape, pode se dizer que, apesar de estar longe de ser uma música ruim, é a mais comum do disco. Ela cresceria sobremaneira em um disco de uma banda menor, mas dentro do repertório de Ride, falta fôlego a mesma. 

No entanto, como já foi dito, a carga de inspiração que gerou as demais composições consegue transmitir sua vibração com tanto vigor que torna qualquer faixa tão grande quanto o todo. Ride the Lightning fincou o nome da promessa Metallica na história e colocou-os de imediato junto aos baluartes do estilo. O disco completou 30 anos mas, curiosamente, toda vez que eu o escuto, me sinto com 30 anos a menos...